domingo, 3 de março de 2013
CLICHÊS
“Tem chovido muito nos últimos dias”. A frase, um chavão de janeiro, passou de raspão no ar contemplativo de Daniela. Ela voltou-se, me olhou com desprezo pela obviedade da colocação e voltou ao seu mundo, isolada de mim. Eu coloquei o café morno sobre o parapeito da janela e olhei a cidade. Lembrei-me de verde, um rio vazando pelas baixadas, casas apartadas pelas estradas de lama, a chuva pesada na contraluz que atravessa uma floresta de eucaliptos. “Deus não economiza em bondades”, eu disse. “Desde que Ele vá com a sua cara”, ela respondeu. Atravessamos aquele dia entre pequenas ofensas, farpas que se escondem nas dobras das relações intensas. Saí embaixo de chuva na virada da noite, para um pequeno hotel no centro da cidade. Ela ficou se apossando da casa e de tudo que construímos ao longo de quase 30 anos. Não carrego culpas além daquelas herdadas da minha formação católica. São para a vida toda, não preciso de outras. Faço mais um x na parede, calendário de presidiário, e sigo por qualquer campo isolado que possa alcançar por um tempo, até a calmaria, até o próximo olhar, até a próxima construção de uma história. Velas apagadas, barcos a deriva e um certo desencanto que rouba as cores de tudo que nos rodeia. Até que a chama de um isqueiro, um vento norte e um sorriso desconcertante traga a vida de volta ao eixo. Final e recomeço. Clichês.
sábado, 28 de abril de 2012
PARÁBOLA DE UM AMOR PERFEITO (1998)
As noites andam calmas ultimamente. Daqui de cima, olhando a cidade, tenho a impressão de que o mundo estagnou. Novos fatos estão ocorrendo todos os dias, eu sei. Estamos em 1998, há bombas explodindo na Índia e no Paquistão, as crises econômicas da Rússia e dos países asiáticos estão abalando as bolsas do resto do mundo, temos a velha seca do Nordeste, as invasões de terras, a violência, as drogas. Eu sei de tudo isto, mas, olhando esta noite, com sua lua branca rodeada de um arco embaçado, tenho a impressão de que o mundo estagnou. Uma sensação, talvez a solidificação de um temor, talvez a descrença de que algo novo chegue até aqui em cima e que me faça enxergar de novo, de uma outra maneira, tudo aquilo que se tornou repetitivo, velho demais.
Morávamos juntos, eu e Ana Lucia, numa confortável cobertura na Cantareira, olhávamos a vida lá de cima, a realidade era aquela que havíamos forjado para nossa existência. Não tínhamos filhos, não sei bem a razão, ela sempre argumentava que filho era bom, desde que não tivesse que cuidar, não saberia lidar com aquilo, eram muito frágeis quanto pequenos e insuportáveis quando adultos, via isto nos filhos dos poucos amigos que tínhamos, se é que os tivemos. Os canalhas normalmente fazem o caminho que lhes parece correto: Enchem as esposas de filhos e depois arrumam amantes que lhes possam dar o sexo quente, por vezes animal, sem pedir grandes comprometimentos, desde que recebam uma gorda conta bancaria que lhes permitam viver com folga. Eu fazia diferente, procurava em garotas de programa algum tipo de alívio, já que Ana Lucia via o sexo como um suplício. Podia valer-me da minha posição de empresário bem sucedido e do poder de sedução que o dinheiro me conferia, podia cercar-me de algumas amantes, não mais que uma por vez, tomando sempre o cuidado de evitar envolvimentos, nada que durasse mais que dois ou três meses. Com um bom reembolso conseguiria a garantia de silêncio e também não correria o risco de chantagens já que Ana Lucia, de certa maneira, sabia das minhas necessidades como homem, seria como um acordo velado, tendo satisfação com outras mulheres eu não precisaria incomoda-la. Mas não, eu achava as putas mais honestas e, sendo um serviço pago, eu não via aquilo como uma traição. Ana Lucia gostava de sair todas as tardes, além da ginástica três vezes por semana, arranjava sempre algum outro compromisso, algum chá beneficente, alguma visita a instituições de caridade ou de deficientes, reunião de senhoras do bairro, e coisas assim. Ela não me incomodava e tampouco seus compromissos. Apesar de ser uma mulher lindíssima, nunca me preocupei com possíveis relações extraconjugais, seu desinteresse pelos assuntos sexuais era bem nítido, buscava intensamente as coisas espirituais, místicas, além de ser católica praticante, dessas de ir à missa aos domingos e tudo mais. Tínhamos uma relação afável, generosa, à noite conversávamos sobre as coisas do dia, não havia conversas exacerbadas, sempre um tom civilizado. Éramos um casal respeitado nos meios sociais, apesar da ausência de filhos as pessoas nos viam como o exemplo de um casamento sólido, nosso relacionamento era, se posso dizer assim, eficiente, burocrático. Um dia ela me disse eu vou te deixar. Disse assim, calmamente, olhando para a xícara de café, para o suco de laranja, para o mamão-papaia, para as fatias finas de presunto, para a tijelinha de cereais. Estávamos sentados junto à janela, o sol surgia sobre os morros da Cantareira e iluminava o rosto de Ana Lucia, dourados pela luz. Depois de comunicar aquela decisão a todos os apetrechos da mesa ela levantou a cabeça e me olhou e notei que em seus olhos azuis havia um brilho diferente. Talvez aquele brilho sempre tivesse sido daquele jeito, há muito eu não olhava para os seus olhos, talvez por isto eles parecessem diferentes agora. Não, havia uma diferença sim, havia algo por detrás deles, eles queriam me dizer alguma coisa, pareciam estar marejados, talvez cheios de palavras represadas. Seus lábios tremiam levemente, algo quase imperceptível, um detalhe que talvez eu não notasse em outra circunstância, ela levantou-se e passou a andar pela sala. Eu esperei, o jornal havia entornado o copo com suco sobre minha calça e o que havia sobrado pingava da mesa para o carpete. Pouco depois ela voltou-se e sentou-se novamente, era uma mulher de não demonstrar emoções, lembro-me de nunca tê-la visto chorar, disse que havia dormido pouco e sentia os olhos irritados. Eu perguntei o porquê daquilo, enquanto tentava enxugar a calça com um guardanapo, perguntei se lhe faltava alguma coisa e ela disse que tinha muito mais do que precisaria para viver, não era essa a razão. Confesso que achei minha pergunta extremamente estúpida, reduzia o nosso relacionamento ao nível dos bens materiais, não era isto que eu queria dizer, foi um ato falho, e disse isto a ela. Ela respondeu que os atos falhos são para isso mesmo, para abrir a verdade. Mas complementou dizendo que eu não me preocupasse com esse detalhe, que ela não se sentia aborrecida por aquilo, que em um relacionamento como o nosso as coisas não poderiam ser diferentes. Ajeitou os cabelos com as mãos, como se fosse fazer um rabo-de-cavalo, e sorrindo gentilmente me disse que havia decidido mudar o rumo de sua vida, que havia encontrado algumas respostas para o que procurava, coisas que eu não iria entender. Perguntei se havia outra pessoa, minha voz tremia, ela respondeu que não, que tinha muito carinho por mim e que gostaria que continuássemos amigos.
Do meu escritório eu via o Edifício Itália batendo no céu, nuvens carregadas de fim-de-tarde passeavam por sobre a cidade, eu tinha o jornal aberto sobre a mesa. A conversa com Ana Lucia não me saia da cabeça, quase dez anos de convívio, eu tentava entender aonde havia errado, meu comportamento com ela sempre estivera de acordo com a maneira que ela gostava de viver, talvez eu não tivesse sido capaz de despertar nela outros sentimentos, talvez eu tivesse me acomodado, imaginava que envelheceríamos juntos, uma coisa tola eu vejo agora, mas era o que estava implícito no nosso modo de vida. Aos poucos meus pensamentos foram seguindo outra direção, eu sempre a havia deixado muito livre, lembrei-me de que, exceto os nossos amigos comuns, eu não conhecia ninguém de seu relacionamento particular, suas saídas a tarde, suas sessões de ginástica, muita coisa pode acontecer nesses ambientes, ela era uma mulher bonita. Alguém poderia ter despertado nela sensações que eu nunca fora capaz, indo direto ao assunto, alguém poderia tê-la feito descobrir o prazer de gozar, saber o que era orgasmo, sentir tesão, era uma mulher saudável, beirando os trinta e cinco anos, cheia de energia, meu Deus, como eu pude ser tão cego? Uma hora depois de eu ter ligado, o sujeito chegou no meu escritório. Não vou perder seu tempo em descrevê-lo já que é o tipo de gente que eu nunca apreciei, e de quem eu jamais imaginei que fosse um dia precisar. Era um detetive particular, que peguei de um desses anúncios de jornais, era um risco, essa gente é sempre uma incógnita, mas me garantiu sigilo e me pareceu ser um bom profissional. Eu alugara um apartamento em Moema para Ana Lucia, pedi a ela que refletisse antes de falarmos em divórcio, na verdade eu precisava ganhar tempo. Ela abriu mão do apartamento, disse que havia arrumado um pequeno no Jabaquara, que havia conseguido emprego como assistente social em uma instituição para deficientes, deixou endereço e telefone e que eu não me preocupasse. Convidei-a para jantar algumas vezes mas ela recusara. Estava cursando filosofia à noite e durante o dia não havia como nos encontrarmos, tinha todo o período ocupado com seu trabalho. Nos finais de semana disse que era impossível nos vermos, mas não me disse a razão. E assim passaram-se seis meses. O detetive esteve em meu escritório varias vezes, trouxe-me fotos, relatórios, nada que a comprometesse, por fim o dispensei, Ana Lucia levava uma vida absolutamente limpa. A minha vida perdera completamente o sentido. Curioso isto. Durante todo o tempo em que convivemos, nunca havia me dado conta do tamanho do espaço que ela ocupava em minha existência. Lembrava-me constantemente do seu sorriso amável, dos seus gestos cuidadosos, da sua preocupação em me ver sempre bem, da maneira como ela escolhia as palavras para não me ferir. Nunca dissemos eu te amo um ao outro, mas alguma forma de amor se escondia na suavidade da nossa relação. Só não havia isto, a cama. Dormíamos juntos, mas raramente nos tocávamos, era como se qualquer tentativa nesse sentido pudesse colocar tudo a perder. Não posso dizer que isto não me incomodava, sentia-me muitas vezes incompetente, lia sobre as loucuras que algumas pessoas dizem fazer na cama, sorria acabrunhado quando casais amigos comentavam suas particularidades. Era quase impossível separar sexo de uma mulher como ela, tinha devaneios, masturbava pensando nela em transas malucas, nas posições mais variadas, muitas vezes tive vontade de pegá-la a força, mas nunca tive coragem. Minha casa havia ficado grande demais, a volta do trabalho havia perdido a graça, era como se eu tivesse perdido um elo, naquele momento eu me achava com poucas razões para viver. Os negócios iam razoavelmente bem, mas comecei a pensar seriamente em mudar de cidade, ir para o interior, envolver-me com atividades menos desgastantes, o homem sempre quer ir para longe quando precisa se achar. Um dia, num sábado pela manhã, eu fui, sem avisar, até o apartamento de Ana Lucia, levei um ramalhete com flores silvestres, que ela sempre gostara. O porteiro disse meu nome no interfone, houve uma pausa, perguntou meu nome novamente e depois confirmou para o outro lado da linha, eu podia subir. Ela abriu a porta e sorriu, eu sorri também, estendi a mão e ela me abraçou, disse que bom te ver e me convidou para entrar. Seu apartamento era pequeno, duas samambaias penduradas, uma estante com bonequinhos de porcelana, vídeo, som, uma tv pequena, dois sofás de tecido azulado, uma mesa de madeira escura, um conjunto de sininhos em espiral no canto da parede e uma garotinha entrou do quarto para a sala. Esta é Clara, disse Ana Lucia, abraçando a menina que sorria agarrada à sua cintura, não tinha mais que dez anos. Ela pediu que eu me sentasse, disse que adotara Clara, seus pais haviam morrido e não tinha quem cuidasse dela. Havia a casa assistencial, onde ela ficava o dia inteiro, e onde Ana trabalhava, e a noite as duas vinham juntas para casa. A menina tinha algum tipo de deficiência mental, mas não fiquei sabendo de maiores detalhes. Perguntei pelo curso de filosofia e ela, um pouco sem jeito, disse que tinha sido uma pequena mentira, não queria falar sobre Clara pelo telefone. Ela perguntou por que eu estava lacrimejando e eu disse que não havia dormido direito, que sentia os olhos irritados, Clara voltou para o quarto e ficamos os dois na sala. Sentei ao lado de Ana Lucia e peguei em suas mãos, estavam frias, seus olhos estavam úmidos, eu disse que ela podia ter me falado que gostaria de adotar uma criança, que por ela eu seria capaz de ter esse amor, que se ela quisesse nós poderíamos voltar a morar juntos, os três. Ela sorriu, foi até a cozinha e voltou com duas xícaras de café, sentou-se em uma das cadeiras da mesa e, me olhando de um modo muito divertido, disse que o detetive que eu havia contratado para segui-la tinha lhe passado uma cantada. Abaixei a cabeça, senti-me pequeno, ridículo, e ela, como sempre, veio em meu socorro, e ao mesmo tempo disse coisas que até hoje não sei se compreendo bem. Disse que qualquer homem, no meu lugar, tomaria a mesma atitude, que esta é a atitude normal dos homens quando se vêm diante de situações fora do lugar-comum, pensar em traições é sempre mais confortável, visto que, para eles, dentro do seu pequeno mundo, é impossível que uma mulher bonita não seja igualmente ardente, sedenta, fogosa. E que esta é a visão geral das pessoas, inclusive, e principalmente, a visão das mulheres, que se vêm, em muitos casos, obrigadas a fingir prazer para não serem taxadas de frígidas. Disse que simplesmente não gostava de sexo, não via prazer naquilo e que gostaria de ser respeitada pela sua opção de vida, que achava mais importante o seu engrandecimento espiritual, a dedicação a pessoas como Clara, que dependem de amor para sobreviver, do tipo de amor que ela sabia dar. Disse que não abria mão da liberdade de ser o que era, e que gostaria muito que as pessoas a deixassem em paz, que era assim que ela se sentia plenamente feliz.
Cinco anos já se passaram. Recolhi-me nesta casa nas montanhas, de onde vejo uma pequena cidade aqui perto. Gasto meu tempo escrevendo coisas que, se não servem para nada, ajudam a purgar a alma. À noite, eu me deito sobre este banco longo de madeira e, de frente para o céu, olho a lua e as estrelas e tento entender. Varias vezes durante o dia eu olho para a porteira lá embaixo, esperando que um dia Ana Lucia volte. Se ela não demorar muito, ainda haverá tempo para envelhecermos juntos.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
De um romance em construção.
É um rio vagaroso de não mais de vinte metros de largura, desses em que só se percebe a correnteza pelo movimento dos arbustos nas margens. Leva uma lua cheia e branca em seu meio, a noite dobrando para a segunda metade. Um velho de andar arrastado vara as moitas de capituva e se aproxima da margem, quando uma movimentação do outro lado chama sua atenção. Um cão de três patas surge sobre o barranco e para, num equilíbrio estável e improvável. Seus olhos se encontram. O velho, absorto na estranheza daquela figura, por um instante se desvia do que o trás ali. Mas um gemido de dentro das águas o desperta. Ele se agarra nos arbustos e desce o barranco até a beira. Ajoelha-se e dobra o corpo, como se tentasse enxergar dentro do rio. Uma força brutal, vinda de não se sabe onde, puxa seu pescoço pra dentro da água e ali o mantem sem que ele consiga se soltar. Ele se debate desesperado. Sob as águas, mãos e rostos aflitos vão surgindo e se aproximando. No extremo de suas forças, o velho consegue se soltar e cai de costas sobre os arbustos. Na outra margem, o cão de três patas permanece impassível.
Amadeu acorda assustado, seu rosto está coberto de suor. Alguns filetes de luz entram da rua pelos vãos da veneziana e riscam o guarda-roupa em frente à cama. Com alguma dificuldade, ele se senta. Do criado-mudo ao lado ele pega o maço de cigarros e acende um, a luz do isqueiro ilumina um crucifixo na parede sobre a cama. Latidos e barulhos de carros chegam das ruas próximas. “Todo uivo vem de longe”, pensa. Trêmulo, ele se levanta e sai.
Atravessa a sala no escuro e acende luz ao entrar no banheiro. Mantem a cabeça abaixada por um instante para recuperar-se do choque da claridade. Sente a cabeça pesada, a ressaca grudando as paredes da garganta.
Ele olha-se no espelho, brevemente. O rosto maltratado aparenta 60 anos. Tem menos. “A idade é uma chacina”, pensa. Mas não sente mais os remorsos de antigamente, quando nesta hora, com os efeitos dos excessos da noite anterior, repassava as tragédias de uma vida permeada de enganos e fracassos. Hoje é um homem seco por dentro, como gosta de pensar, embora seja apenas uma estratégia de sobrevivência a mais. Apanha a escova de dente. Na parede do corredor há uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O resto de luz do banheiro revela um pouco da cozinha logo a seguir: Um fogão pequeno, a pia vazia, uma mesa de duas cadeiras, um armário estreito e um refrigerador já meio antigo. O barulho da costumeira ânsia de vômito enquanto escova os dentes se espalha pela casa. Cospe e enxagua a boca. Em seguida, o barulho do chuveiro. Na sala, a claridade do dia vem entrando por debaixo da porta.
Pouco tempo depois, Amadeu deixa casa. “Por que um cão de três patas?”, ele pensa.
Amadeu acorda assustado, seu rosto está coberto de suor. Alguns filetes de luz entram da rua pelos vãos da veneziana e riscam o guarda-roupa em frente à cama. Com alguma dificuldade, ele se senta. Do criado-mudo ao lado ele pega o maço de cigarros e acende um, a luz do isqueiro ilumina um crucifixo na parede sobre a cama. Latidos e barulhos de carros chegam das ruas próximas. “Todo uivo vem de longe”, pensa. Trêmulo, ele se levanta e sai.
Atravessa a sala no escuro e acende luz ao entrar no banheiro. Mantem a cabeça abaixada por um instante para recuperar-se do choque da claridade. Sente a cabeça pesada, a ressaca grudando as paredes da garganta.
Ele olha-se no espelho, brevemente. O rosto maltratado aparenta 60 anos. Tem menos. “A idade é uma chacina”, pensa. Mas não sente mais os remorsos de antigamente, quando nesta hora, com os efeitos dos excessos da noite anterior, repassava as tragédias de uma vida permeada de enganos e fracassos. Hoje é um homem seco por dentro, como gosta de pensar, embora seja apenas uma estratégia de sobrevivência a mais. Apanha a escova de dente. Na parede do corredor há uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O resto de luz do banheiro revela um pouco da cozinha logo a seguir: Um fogão pequeno, a pia vazia, uma mesa de duas cadeiras, um armário estreito e um refrigerador já meio antigo. O barulho da costumeira ânsia de vômito enquanto escova os dentes se espalha pela casa. Cospe e enxagua a boca. Em seguida, o barulho do chuveiro. Na sala, a claridade do dia vem entrando por debaixo da porta.
Pouco tempo depois, Amadeu deixa casa. “Por que um cão de três patas?”, ele pensa.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
PROJETOS, REFORMAS E PEQUENAS VERDADES.
ELLA me olhou do canto da sala, enquanto folheava uma revista sobre reformas e construções. Ela planejava remodelar a casa da praia e já há dias pesquisava sobre encanamentos, madeira, vitrais e um tipo de verniz marinho que protegesse algumas de suas novas esculturas de metal. Em seguida levantou-se e veio sentar-se ao meu lado, junto da lareira. Era uma estranha noite fria em pleno novembro. Acendi um cigarro e completei a frase que a fizera deixar o maravilhoso mundo da construção: “Uma viagem de seis meses, cortando o estado de Minas para o norte”. Ella esfregou as mãos calmamente, depois de estica-las para o fogo. “Isto pode ser perigoso na sua idade”, e nem disfarçou o sorriso. “Qualquer coisa é perigosa na minha idade”, sem esconder um amargo incerto, aquela coisa que chega aos poucos, até se instalar como o último freguês que nunca quer ir embora. Era um projeto antigo, vagar de cidade em cidade, colhendo material para um futuro road movie. O tempo foi se encarregando de empoeirar os planos e me tirar da trilha, por meio de trabalhos indesejados, problemas não solicitados e uma ruína financeira que arrancou lascas da minha dignidade e orgulho próprio. Ella me salvou com seu amor doce, seu talento afiado para as verdades pontiagudas e, principalmente, com seu dinheiro. “Tenho que completar isto. Uma ideia na cabeça por tanto tempo tem que ter algum fundamento”. Era aquela urgência sem aviso. Sabe, velho, o medo do tempo? “O material que você procura não está nesse trajeto, mas acho que você deve fazê-lo”. Então me beijou. Um beijo fora de hora e estranho como aquela noite fria, em pleno mês de novembro. Em seguida ela voltou para sua revista de reformas e construções. Por um instante eu tive aquela sensação recorrente de que Ella me via como uma de suas esculturas, as quais ela precisava de vez em quando aplicar uma camada de verniz. Levantei-me e fui até a janela. Um nevoeiro cobria parte da Serra da Cantareira. “Tudo errado, tudo fora do lugar”. E fui para o meu quarto, pensando que um dia desses eu teria que fazer aquele trajeto, cortar o estado de Minas para o norte.
domingo, 31 de julho de 2011
ESTILHAÇOS DEPOIS DA NEBLINA.
Eu já estive num mar revolto, violento, assassino. Água vazando pra dentro, tapando o fôlego, nenhum farol a vista. Ondas de quinhentos metros de altura, do mesmo tamanho do abismo de onde eu escrevia versos tortos, poesia em prosa sobre as possibilidades de isto não ser bem o que se escancara. E assusta, e apavora, como se não fosse possível conceber um mundo de tamanho desastre. Uma garganta, um mundo feito de gargantas e buracos e beiras de abismos, unhas cravadas em pedras escorregadias, torrões se desprendendo e esfarelando, o vôo, a queda, pra longe, sempre mais para longe. Voz calada, rasgando a pele na luta de tentar dizer o incompreensível, aquilo que só quem vai por ali conhece essa trilha, a mais profunda solidão que não cabe em palavras, nenhum verbo juntado, atrelado, amarrado a outros compostos vão dizer em tamanho e graus exatos o que é aquilo. Desce da parede, despenca do céu feito pontas de lança, emerge do nada e afunda pra outro mais longe e fundo e distante. E retorna na mesma força e violência. Verme é o que sobra quando nada consegue ser compreendido. Não se vê de fora, não se entende de dentro, cabos de contato quebrados, mundos paralelos e partidos. Todos os portos nesta hora estão fechados, quebraram-se as luzes dos faróis, o mar engoliu tudo e fechou-se em si. Pressa, desespero de chegar, braços sempre à frente, o corpo atirando-se ao vácuo que os braços vão deixando, vem o porto e some logo em seguida, some para o onde que não existe, para o vazio estabelecido e perpetuado. Há um bate-estaca na sala, a pata de um gato arranha um papel embaixo do sofá, alguém risca uma caixa de fósforos na cozinha. Alternam-se, afiados na ordem, como combinaram lá fora antes de entrar. Noite longa, é assim que termina o mundo, numa única noite longa, de solidão que parece ter voz que ecoa sempre para o lado de lá, um eco que se escuta ao contrário, como se fosse possível ver as costas de um eco em disparada pra longe e o que se ouve dele é apenas a impressão de um som do lado de cá. Pega-se o mundo pelo rabo, pelas beiradas, pelos fragmentos do pouco que se pode entender, uma fala interminável que está sempre dentro de algum quarto que não se vê. Escuridão, gente conversando atrás da porta, cabeças que aparecem e somem, todas as chaves no mesmo chaveiro do porteiro do inferno, sempre de costas, olhando de soslaio por sobre o ombro todas vezes que tem que dizer não. Vocabulário de uma só palavra, repetida no mesmo ritmo por sobre o ombro. Sempre assim. Não solta, não alivia, não recrudesce, se há porrada a dar é um segundo que vem. Esse maior e sempre de frente e de punhos largos, pronto para os socos pontuais, nas horas marcadas. E o porto, que estava ali agora ha pouco, ganhou uma neblina espessa sobre ele, há um mundo de névoa agora, melhor assim, porque é da natureza da neblina revelar alguma coisa. Há a sombra de um porto que estava aqui, segundos atrás, tão perto, tão junto de pegar...
sábado, 23 de julho de 2011
SIGA,
Há outras formas de ver a vida. Esta é a primeira frase da última carta que você me mandou. Engraçado, somos do tempo em que ainda se enviavam cartas. Não li mais, o início me disse tudo que eu precisava naqueles dias. Tive medo que o resto desmentisse aquela lição fundamental. Você sabia do meu tormento e mesmo seguindo outros caminhos nunca deixou de se importar comigo. Sou erva ruim, garota e preferi ir embora pra te salvar de mim. Já descobriu que a vida é uma linha coberta de dúvidas do começo ao fim? Espero que saiba que não precisamos enlouquecer por isto. Estamos felizes num dia, tristes no outro, descrentes muitas vezes e ainda assim seguimos, pela curiosidade de viver. Enquanto escrevo, lembro-me dos teus olhos castanhos, puxando para o verde dependendo da luz ou das tuas/nossas intenções. Ainda tem aquele vestido de flores verdes miúdas que me perdia o rumo? Garota, por você eu me joguei numa vida de corredeiras e pra te livrar de mim hoje vivo um mundo de insanidades. Você sabe me dizer por que sei tanto pra te ensinar e não absorvo nada do que sei? Você vai me devolver “é assim mesmo”, o jeito que te ensinei a virar o rosto para o medo. Te quero bem e por tanto te querer, siga. Não é um pedido, é um desejo sincero porque, por mais que seja duro viver, abdicar da vida é jogar fora o susto do inesperado e os noventa e nove por cento de tudo que ainda precisamos conhecer.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
OS ANJOS QUE VIVEM POR AÍ.
Anjos andam por desertos, terras geladas, crateras de vulcões, cantos extremos do mundo e também pelas esquinas mais ordinárias das cidades. Nelas nos encontramos quando tudo se fecha em becos, frestas e a vida parece estreitar-se. O fim próximo, a ausência de ilusões, a incapacidade de compreender.
No pontilhão sobre o rio, o anjo me olha como quem já viu de tudo e pacientemente me pergunta o que quero. Eu olho para o seu conjunto, tão comum como o mais comum de nós: uma camiseta branca com nódoas antigas, uma calça jeans gasta nas dobras naturais do corpo e levemente rasgada nas barras que sobram sobre botas de couro encardidas. Ele levanta seus braços magros e compridos e me chama para um abraço porque meu tempo de resposta foi longo demais. Eu me conforto no meio daquele corpo que parece meu pai, meu irmão, alguém me ama mais do que eu mesmo. Por instantes eu me esqueço da vida, vou pelos mesmos desertos, pelas mesmas terras geladas, pelas mesmas crateras de vulcões e pelos cantos extremos do mundo, meio que sozinho, meio que envolto por uma paz reconfortante e uma voz que me diz que tudo vai ficar bem. E pela mão de um anjo eu ganho mais um tempo de serenidade, certo de que nem tudo pode estar errado sempre. Nem eu, nem os fatos, nem a vida.
No pontilhão sobre o rio, o anjo me olha como quem já viu de tudo e pacientemente me pergunta o que quero. Eu olho para o seu conjunto, tão comum como o mais comum de nós: uma camiseta branca com nódoas antigas, uma calça jeans gasta nas dobras naturais do corpo e levemente rasgada nas barras que sobram sobre botas de couro encardidas. Ele levanta seus braços magros e compridos e me chama para um abraço porque meu tempo de resposta foi longo demais. Eu me conforto no meio daquele corpo que parece meu pai, meu irmão, alguém me ama mais do que eu mesmo. Por instantes eu me esqueço da vida, vou pelos mesmos desertos, pelas mesmas terras geladas, pelas mesmas crateras de vulcões e pelos cantos extremos do mundo, meio que sozinho, meio que envolto por uma paz reconfortante e uma voz que me diz que tudo vai ficar bem. E pela mão de um anjo eu ganho mais um tempo de serenidade, certo de que nem tudo pode estar errado sempre. Nem eu, nem os fatos, nem a vida.
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