domingo, 2 de outubro de 2016

NORTE TODA VIDA

Trecho de Norte toda Vida:


"... lá pelos cinquenta, quando vislumbrava um certo tipo de fim chegando, juntei o resto que se podia contar e comprei um barco de pesca no litoral norte e fui viver no meio do mar,
não tinha casa para onde voltar, apenas um atracadouro num vão de ninguém num braço de rio onde descarregava alguns peixes e entregava em lugares certos, pouco e constante, nenhuma conversa ou perguntas, cachaça e cerveja e uma saída silenciosa até o dia seguinte,
vivi anos nesta rotina de silêncio e compromissos pequenos, com alguns e comigo mesmo, olhando o mar em volume flutuante dia e noite, chuva e sol ardente que torrou e escureceu e tornou minha pele em couro de lagarto, uma armadura trincada sobre um poço de memórias tentando não se lembrar de si mesmo,
o som da água noturna batendo em schlaps suaves na beira do barco em noites calmas ou o solavanco virando força de destruir, querendo varar a madeira nas noites e dias de fúria, o mar no desejo de inverter tudo de posição e jogando o barco pra ver seu fundo de esquecimento e encerramento, uma cortina que podia chegar como se soubesse que era ela mesmo que estava sendo procurada, silêncio em ambos os casos e situações, sem medo da morte e do seu rugido, patadas apenas, como outras de outros tempos e circunstâncias,
descendo o rio além do meu ancoradouro havia um hotel pequeno de um sindicato qualquer e Lourdes, uma negra bela e ciente dos olhares de desejo meus e dos outros, era quem recebia meus peixes todas as manhãs, com seu uniforme azul de golas brancas e coxas grossas a mostra, naquela hora em que os peixes escorriam para dentro da sua bacia de alumínio e eu mesmo entrando por ela por outros lugares em pensamento e Lourdes sorria, “até amanhã”,
e aumentavam os solavancos no mar, mesmo nas noites de calmaria, eu era um lobo do mar forçado, moldado na obrigação de se virar por algum lugar pra não ter que interromper a luta antes da hora, então eu saía para o convés do meu pequeno barco e via o continente ao longe, um recorte curvo ao longo das montanhas de costas peladas e verde-escuro na noite, as luzes enfileiradas e amarelas na linha do desenho, e Lourdes na direção certa do olhar, na espera do dia seguinte,
e nasceu Antonio um ano depois,
depois que Lourdes começou a vir me ver à noite, em um barco alugado que a deixava por lá depois do horário do hotel, e trepávamos horas e horas no balanço da água, Lourdes de olhos negros e boca vermelha e grossa, de poucas palavras como eu,
e Antonio puxara Lourdes com um leve tempero de caiçara falsificado meu,
e ele cresceu e aprendeu a pescar comigo, me ensinando de volta algumas coisas que eu tinha esquecido, um garoto que tinha o olhar perdido de vez em quando na vastidão do mar, ao entardecer, quando ficava mudo além do que eu e ele éramos no normal, maldição essa herdada de mim,
mas, se eu pude sobreviver, mesmo olhando adiante sem entender, ele não conseguiu e saiu um dia pela manhã e não retornou e Lourdes saiu pela cidade perguntando pelo menino e eu voltei para o mar para não morrer antes da hora, agora que uma coisa nova chegava eu não tinha coragem de ver uma outra dor novamente, aquele tempo de suportar tinha passado, eu tinha que morrer se tivesse que ver outro corpo inerte, essa repetição na minha frente,
e avancei para o alto-mar, para uma ilha longe da vista do continente e desci por ali e dormi na areia naquela noite, olhando o céu de estrelas, uma noite sem lua, a ilha e tudo escuro, o mar só no barulho das pedras e nas paredes do barco ali perto, uma noite de pesadelos e arrependimentos,
e dois dias depois um barco encostou na ilha e Lourdes se ergueu na proa, com um dos pés apoiado na beirada,
“você vem?”
“e Antonio?”
ela chorou de longe olhando pra água batendo no barco,
“ele sumiu...eu vou embora pra São Paulo, você vem comigo?”
“não”
ela ficou lá, parada por um tempo,
seu olhar balançando,
aquela figura escura e bela na proa do barco e eu achando que tudo seria melhor se eu esquecesse e seguisse,
o barco virou pra ir embora e Lourdes gritou adeus e alguma coisa mais que de longe eu pensei que era aquela coisa boa de se ouvir da boca de uma mulher, mas misturou com as ondas nas pedras e as gaivotas em volta do barco,
e logo o mundo era eu, o mar, a ilha e o barco na espera de alguma coisa, de um próximo passo, o último que finalmente veio dar aqui..."

terça-feira, 11 de agosto de 2015

JESUS, DE PASSAGEM.

Jesus está no compartimento inferior, impresso num folheto verde, abaixo dos maços de cigarro. Cristo posto à prova sob os vícios, entre fotos de membros gangrenados e pulmões pretos de fumaça e um garoto à beira de uma cama de hospital onde seu pai definha. Jesus é o contraponto à advertência, a promessa de proteção e cura, o corpo crucificado pronto para toda e qualquer obra. Engulo mais um pouco da minha Coca. Estou de frente a uma prateleira de bebidas. Não há nada ali que eu já não conheça de outros tempos. Um casal de moradores de rua entra e pede uma marmitex. Ela tem uma embalagem de batatas Pringles dentro de uma sacola de supermercado. Alguém grita um nome na rua e fala dos presos que estão voltando do indulto de Dia dos Pais. É naquela praça que eles chegam e partem nesses períodos. É quando escuto os julgamentos prontos e reconheço que vivo numa terra onde não existe a remissão, a redenção, onde nenhuma sentença jamais será dura o suficiente para satisfazer os idiotas. Que não estão ali, mas nos escritórios em volta, com suas roupas iguais, com seus sapatos iguais, com sua falta de imaginação. Divago. Jesus está preso num compartimento de vidro, sob maços de Marlboro e ao lado de uma tabela de preços. Natalie, que tem o nome do filho tatuado no braço, traz o marmitex para o casal e lhes deseja boa sorte. Os outros funcionários riem. Eu olho para Natalie diferente dos outros dias. Seu olhar me diz que eu não a conheço. E segue para secar e colocar os talheres em saquinhos plásticos, num canto do salão. A prateleira de bebidas reflete as luzes de dentro e da rua, assim como as garrafas de cores diversas, do líquido e do vidro, e dos tons que se alteram quanto mais se olha para elas. É um campo dourado de trigo balançando ao vento, de riachos de águas geladas e puras, de mãos revirando os grãos sagrados, dos tonéis de madeira e do cheiro da fermentação que adensa o entorno e entorpece os sentidos, dos rótulos elaborados por mãos geniais, dos homens e mulheres de outros mundos em seus carros e mansões e todo poder do mundo. Há o som do bacon e dos bifes fritando sobre a chapa quente, há o motorzinho do espremedor de laranjas, há o tilintar do copo de café colocado sobre o balcão, para o homem que acabou de pagar a conta. Termino o sanduiche e olho para Jesus preso entre os cigarros e a tabela de preços. Peço a conta e paro na porta. Olho a praça. O casal de sem-teto come em um dos bancos de cimento sob as árvores. Sinto o gás da Coca me pressionado o estômago. Olho para o sol e peso os dias. E saio levando na cabeça o Jesus preso num impresso verde, dentro de um vidro, sob vícios e preços. 

sábado, 25 de julho de 2015

RATOS NO NEVOEIRO


Ando de um lado para o outro, já percorri esse saguão umas duzentas vezes e ainda não consegui definir o que me incomoda. Meu voo deveria chegar em uma hora, já fiz o check-in e me sinto abandonado, o último homem na face da terra, segurando uma mala pequena, com a terrível sensação de que não saberei dar o próximo passo. Carrego a sina dos tolos que querem mudar o mundo, levo nos ombros as dores de outros, sem saber o que fazer com as minhas e é tudo muito pesado. Entro na livraria e compro uma agenda do Mario Quintana, folheio os dias que virão e procuro me embalar nos versos curtos do homem que viveu em hotéis, e lembrei-me de que também já fiz isto, entrava e saia de hotéis, bebia até altas horas conversando com o barman que me ouvia com a benevolência adquirida na profissão. Mas minha afinidade com o Poeta termina aí, não deixei obra alguma, a não ser folhas rabiscadas sobre o criado-mudo, que eu esperava fossem lidas pela arrumadeira da manhã. 
O tempo não passa, são quase dez horas da manhã, tomo cerveja no bar do piso superior, voos e aterrisagens foram suspensos, baixou um nevoeiro repentino sobre o aeroporto. O garçom atrás do balcão parece não ser de muita conversa, é assim em geral em aeroportos e rodoviárias, tudo muito impessoal, nenhum laço se cria, as pessoas que chegam e vão não serão as mesmas amanhã, todos correndo em grupos no arrastão do tempo. Lá fora, o nevoeiro sobre os aviões parados deixa uma fresta na lateral da pista, por onde se vê edifícios cortados ao meio. Abro a agenda, hoje é 03 de abril e como se fosse uma folhinha do Seicho-no-ie, leio a mensagem do Poeta: 
“Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo! ” 
Vou até próximo a janela e sento em uma das mesas junto a parede de vidro. Em frente, em outra divisão daquela ala, está um grupo de garotos olhando para a pista, têm os rostos colados no vidro, um jeito de frustração pela paralisia trazida pelo nevoeiro. Devem ser meninos das proximidades do aeroporto, vêm ali observar a chegada e a saída dos aviões, suas roupas são de gente pobre, ainda nessa idade talvez não saibam que a parede de vidro é o menor dos obstáculos que os separam daquele mundo. Não quero pensar sobre isto, já deveria estar no alto, no inicio da estrada para outro ponto, os aviões devem estar sendo desviados para outro lugar, peço uma vodca, um casal de executivos senta-se na mesa a minha esquerda. Sinto um certo conforto em saber que somos iguais, se fossem melhores do que eu estariam na sala vip, partilhamos o mesmo degrau social neste momento. 
Ela morreu na tarde do dia 25 de março, faz um ano e pouco que meu mundo desabou. Tinha os olhos negros mais belos da face da terra e relutou em morrer sabendo que me deixaria órfão. Não sofreu como sofrem os portadores das grandes doenças que fazem a riqueza da indústria farmacêutica e a fama e fortuna de médicos especialistas. Também não queria falar disto, mas é impossível não lembrar que tudo começou com uma carta enviada por uma tal Anair Medeiros, uma mulher sem endereço no verso do envelope, e sendo um nome que não me dizia nada, era uma carta anônima. Passei a seguir minha mulher a distância, vigiava seus passos durante todo o dia, o lugar citado na carta era um prédio velho na região da Luz. Passei a usar as armas dos covardes, frases de duplo sentido, ironias prontas para qualquer instante, silêncios prolongados, olhares de desconfiança, risos lacônicos. À noite, quando ela me procurava, e ela procurava sempre, eu virava do lado, tivera um dia cheio, muitos problemas no escritório e outras evasivas mais. Mas não conseguia dormir, passava as noites olhando para o guarda-roupas, decorando as linhas tortuosas do seu revestimento de pinus e o arremate defeituoso junto ao teto. Remoía minhas desconfianças em silêncio, imaginava chegando no momento exato em que o outro estaria sobre ela, em um quarto sujo, de colchão rasgado e sem lençóis, janela estreita de cortinas encardidas, o banheiro sem porta, o vaso sanitário imundo, a ducha Corona velha e quebrada, o caminho ferruginoso da água que vaza do cano e escorre pela parede. Passei a beber mais do que o costume, chegava tarde no escritório, a barba por fazer, saía no meio das reuniões, no meio do expediente, para segui-la e sempre bebia mais um pouco nessas horas. Comia pouco, emagreci, um dia ela me pegou para uma conversa, queria saber o que estava acontecendo comigo, eu disse que nada, apenas um grande turbilhão movendo minha vida, virando tudo do avesso, ela que me deixasse em paz, antes de sair perguntei se ela conhecia uma tal de Anair Medeiros, ela disse que não, e eu disse que ela deveria escolher melhor suas amizades. Foi indo tudo assim, sem esclarecimentos de lado nenhum, o inferno foi se formando e um dia, quando eu estava parado em uma rua suspeita na região da Luz, eu a vi entrando no tal prédio. Ficou lá dentro umas duas horas, pensei em ir atrás, mas não tive coragem, se fosse pego ali não saberia explicar, então esperei. Saiu do mesmo jeito que entrou, apressada, entrou no carro e desapareceu, e eu fui para o escritório. 
A carta de demissão estava em cima da mesa, não me despedi de ninguém e fui para o litoral, parei no Guarujá, tirei os sapatos e fui andando pela areia, um navio cargueiro equilibrava-se na linha distante, um sol tímido entrecortado de nuvens ralas e velozes, encostei numa barraca e pedi uma caipirinha. Por um instante eu pensei que o mundo estivesse se movendo em câmera lenta, o homem passava a faca firme sobre o limão e as fatias iam caindo lentamente, quando uma deitava sobre a tabua a outra caia sobre ela, devagar, e a faca reluzia e o homem sorria, olhando para mim e para a faca. Virei as costas de repente e respirei fundo, tentando puxar do mar alguma coisa que interrompesse aqueles pensamentos. 
Cheguei em casa era madrugada, nem sabia como havia feito o trajeto de subida da serra, a vista estava turva, eu havia bebido além da conta, as luzes dos postes do estacionamento se multiplicavam e se entrelaçavam como argolas, eu reclinei o banco e dormi. Acordei com o sol batendo em meu rosto e ela batendo no vidro do carro. Entramos no apartamento e ela perguntou por onde eu tinha andado, disse que não sabia, que não lembrava de nada, bebedeira com os amigos do escritório, ela sabia que era mentira, tinha ligado para um deles a noite a minha procura e já sabia da minha demissão. 
Uma gargalhada na mesa vizinha me traz de volta ao aeroporto e o nevoeiro agora encobre os aviões na pista. Tiro minha passagem do bolso e olho o destino e não sei o que vou fazer por lá, Nova Zelândia, de lá só sei das ovelhas e das montanhas, mas é um lugar distante e é para lá que vou, se esse avião um dia chegar. Tenho medo dos ratos que estão do outro lado do nevoeiro, todas as noites, quando um silêncio inexplicável cala o mundo, eu os ouço gritando nos subterrâneos da cidade, vejo-os me arrastando pelos bueiros e hoje eles são ratos de névoa. 
Ela ficou estática no meio do apartamento, esperando explicação, eu entrei para o banheiro. Depois do banho saí sem dizer qualquer palavra, ela estava trancada no quarto. Bebi até altas horas, entrei nos puteiros da região da Brigadeiro, comi umas quatro ou cinco putas, em meio a cerveja e vodca e conhaque e cigarros, eu parecia ter entrado em outro mundo ou era em outro mundo que eu queria entrar. Na madrugada fui até o prédio na Luz e parei o carro em frente, algumas putas estavam na porta. Desci e subi as escadas com uma delas, entrei em um quarto imundo, o colchão estava rasgado, virei as costas e desci as escadas correndo, quase caindo no fim. Entrei no apartamento na madrugada, as luzes estavam apagadas, abri com cuidado a porta do quarto e vi na penumbra seu corpo adormecido, virado para o canto. Voltei para a sala, peguei uma garrafa de uísque na prateleira da estante e fui bebendo, ouvindo os primeiros sons do dia chegarem pela janela. 
Acordei assustado com sol batendo sobre as minhas pernas, havia adormecido no sofá, o relógio no videocassete marcava dez horas, eu olhei a porta do quarto, continuava trancada. Fui até o banheiro, arreganhei os dentes para o espelho, tinha olheiras visíveis, o cabelo desarrumado. Entrei no banho, sob o jato quente ouvi o telefone tocando, e tocou até que desistissem, um temor repentino cresceu na boca do estômago. Desliguei o chuveiro apressado, enrolei a toalha no corpo e sai, deixando uma trilha molhada pelo corredor. Abri lentamente a porta do quarto, ela estava deitada na mesma posição, dei a volta na cama e fiquei apavorado. No chão, junto ao criado mudo, estava um copo de uísque e do lado um vidro de comprimidos, seu braço direito pendia a alguns centímetros do piso de vinil. 
No hospital, na região do Jabaquara, eu olhava seu rosto pálido, vigiava seu sono profundo já de alguns dias, havia poucas chances. Um dia ela abriu os olhos e me sorriu, eu perguntei por que, ela manteve o sorriso, eu perguntei se ela conhecia Anair Medeiros, ela fechou os olhos, de novo e para sempre. 
Olho a passagem sobre a mesa e olho a janela e além dela não há mais nada, o nevoeiro engoliu a paisagem. Desço para o saguão e me avisam que um ônibus irá nos levar para o outro aeroporto, tenho duvidas dessa minha atitude, penso em rasgar a passagem. Entro no ônibus e ele vai cortando a cidade. Sinto-me cansado, há tempo para um cochilo, mas refreio a ideia, o nevoeiro ainda está lá fora e eu sei o que há no meio dele.



sexta-feira, 24 de julho de 2015

MÉTODOS E CONVICÇÕES

Meu nome é Sardinha. Antônio Gomes de Sá Sardinha. Sou prefeito. Não, não o prefeito da cidade toda, ainda não. Tenho em minhas mãos uma das Regionais, algo conquistado com muita luta, tive que dar muito sangue, entrei em conchavos, fiz muita bajulação com as pessoas certas, é como dizem, é preciso estar no lugar certo na hora certa.
Olho esta cidade com muito orgulho e principalmente o pedaço dela que me pertence. Tenho de dividir um pouco, você entende o que quero dizer, sabe como é, os vereadores, por trás deles os fiscais, gente disposta a dar porrada, tudo necessário, a cidade é difícil, se não estiver todo mundo amarradinho não funciona. Aprendi com gente graúda, vi como é que se faz, quero dizer, a maneira como se faz.
A vida está difícil, ouço esta lamuria o dia todo, muita gente preguiçosa pelas ruas, muito vagabundo deitado pelas calçadas, muitos pedintes nos faróis, não sei de onde aparece essa gente, a noite então é um inferno.
À noite, sim. Nós temos um plano, sabemos o que o cidadão respeitável, o que paga impostos, quer. Ele não se interessa por métodos, quero dizer, quando a coisa estoura ele pode até se indignar, faz jeito de democrata, aquela história de ir e vir, direitos humanos, mas é uma dorzinha que passa rápido, se vê bons resultados ele sossega, não se pode carregar o mundo nas costas.
No fundo eu tenho muita pena dessa gente, sou cristão, vou à missa todos os domingos, confesso, comungo, doações faço pouco, se a gente solta a igreja acomoda, eles têm que fazer mais, não quero meu dinheiro sendo usado em politica, Cristo fundou uma igreja não um partido.
São pessoas de todos os lugares, o País é grande, e por ser tão grande poderiam procurar outro paradeiro, as oportunidades estão em todos os lugares, mas não, preferem São Paulo, pensam que por estarem na terra do trabalho não precisam trabalhar, não sei se você me entende.
O plano é simples. Agora é noite, bem tarde na verdade, e estou na praça da Sé. Há mendigos espalhados por todos os cantos, nas escadarias da igreja, nas marquises das lojas, em volta do metrô, uma nojeira. Daqui a pouco chegam os caminhões, são só dois. Ainda estamos no começo e se o negócio der certo a gente pode pôr mais veículos, tem sempre particulares dispostos a colaborar, serve qualquer coisa, ônibus, até mesmo vans já ofereceram, não precisamos nem usar verba da prefeitura. É como eu disse, a nossa reciprocidade é o sigilo.
Está uma noite sem lua, tem até aquele friozinho gostoso que é característico dessa época, seria melhor estar em casa com meus filhos, mas é um trabalho que precisa de comando, tem gente que pode achar que não é muito certo, mas estou convicto, outro dia mesmo eu li algo sobre a ética da convicção, parece que era alguma coisa assim.
Já fizemos isto algumas noites, ainda não dá para notar resultados, sai dois vem três. Mas uma hora a fábrica não vai mais dar conta.
Lá estão eles, os caminhões estão encostando, vamos à nossa função social, vamos pegando um grupinho aqui, outro ali, alguns têm dificuldade de acordar, deve ser por isto que morrem queimados facilmente. A maioria cheira a álcool, também à urina e fezes, dias sem tomar banho, é preciso ter estômago, o cidadão em casa não imagina o que fazemos por ele. São mulheres, crianças, a maioria de cor, não digo negro porque podem achar que sou racista, e isto eu não sou, mas deveriam estar felizes por ser maioria em alguma coisa.
Dizemos que somos do departamento social da prefeitura, não usamos qualquer uniforme, não queremos fazer propaganda, a verdadeira solidariedade é anônima. Quando entram no caminhão parece que estão felizes, acho que exagero, parecem ter esperança, é o que aprendem desde que nascem, e por conta desse sentimento não fazem mais nada, sempre à espera que lhes deem de tudo. As crianças ficam grudadas nos adultos, devem estar acostumados uns com o cheiro dos outros, talvez sintam frio, carregam seus cobertores imundos, mendigo antigamente se cobria com jornal.
Temos um médico que nos acompanha, na verdade não é medico, mas sabe tirar uma pressão, e sabe dar injeções, está certo que do jeito que ele aplica deve doer, mas é uma dor que logo eles descansam dela, é disto que precisamos.
O caminhão vai andando, vou na cabine de onde observo tudo, gosto de ver como nosso medico vai aplicando as injeções, é vitamina ele diz, tudo muito calmo, é um santo.
Nem bem a gente pega a Anchieta e eles já estão dormindo, nem percebem o trajeto, não sabem se estão longe ou perto, é gente acostumada a estar cada hora num lugar, tanto faz.
Estamos atravessando a ponte do Riacho Grande, lá atrás está tudo calmo, nosso medico de vez em quando dá uns chutinhos em alguns, tudo muito delicado, para ver se tem alguém acordado, os outros dois ajudantes parecem cochilar lá encostados na porta de saída, não são bons vigias, mas são mais para o trabalho pesado, é incrível o peso que essa gente tem, não comem nada, deve ser a sujeira.
Hoje vamos para a esquerda, procuramos variar de lugar, a represa é grande, não há necessidade de correr riscos, sempre tem algum pescador noturno por aí, gente que mais bebe do que pesca, que está sempre dizendo que viu alguma coisa estranha. É bom prevenir.
O caminhão sai do asfalto e desce um pedacinho de terra, o outro vem logo atrás, encostamos na beira da represa, um dos caminhões traz sempre um bote inflável.
É sempre assim, paramos em algum lugar aonde não haja casas, à uma boa distância da estrada, estamos na margem, um pouco mais pisamos na água.
Sabe que aquele friozinho parece que sumiu? Sinto um calor no rosto, você sabe do que eu falo, parece assim quando a gente vai encontrar com a namorada, ou então quando vamos fazer aquela viagem que estava programada há muito tempo, me sinto como uma criança quando chega na Disney, você já foi à Disney, não foi?
A injeçãozinha do doutor funciona, vamos colocando de três em três amontoados no barco e ninguém acorda, quando é criança dá para por quatro, as vezes até cinco, são sempre miúdos, corpo mirradinho.
Nessa viagem agora eu vou junto, colocamos só dois adultos e uma criança, precaução, temos que contar eu e o homem que vai remar.
Procuramos ir mais para o fundo, quanto mais longe melhor, mas não paramos em um lugar só, mais espalhado é melhor.
O ajudante tira o remo da água e acomoda em um dos lados dentro barco, o remo resvala na cabeça da criança, parece que sentiu a água fria, mas foi só um espasmo.
Vamos deixar a criança por ultimo, pegamos um dos adultos e vamos empurrando o corpo devagarinho para fora do barco, sem fazer muito barulho, e num instante ele desaparece nas águas escuras. Não sei se a pessoa chega a acordar depois que afunda, mas é melhor que não, deve ser desesperador acordar com um monte de água por cima.
Agora falta só a menina, tem a cara suja, mas o rosto até que não é feio, os cabelos loirinhos, o mundo as vezes é injusto, tivesse nascido em outro berço até que podia ter uma vida decente. O ajudante vai escorregando os pés dela para a água, o corpo já desceu a metade, vai soltá-la e ela abre os olhos e me olha, seu olhar me pede alguma coisa, ia mexendo os lábios, mas não deu tempo, o corpo afundou todo na água.
A madrugada vai alta quando chego em casa, um lugar confortável aqui pelos lados da Castelo Branco. As crianças estão dormindo perto da lareira, o frio de hoje justifica. Mas não os acordo, vou até o barzinho e pego um uísque, é preciso relaxar um pouco. Sento na cadeira de descanso do lado da lareira, poucos passos a minha frente vejo o rosto de minha filha dormindo, vejo a mecha dos seus cabelos loirinhos caídos no rosto, ela abre os olhos e me olha e sinto um leve tremor na mão que segura o uísque. Mas logo passa.




sábado, 2 de novembro de 2013

NA PREGUIÇA

Pelo que me consta, isto não vai durar para sempre. E não vai resolver prestar muita atenção no tic-tac do tempo (no tempo em que tic-tac não era balinha pro bafo), que as tuas lamúrias não vão mudar nada. 
Hoje venta forte pelos lados de cá. Há uma pilha de coisas a fazer sobre a mesa – aquela que eu mesmo fiz – e sobre o sofá de reserva – aquele que agora é um armário aberto. Por que o cenário do Jonathan Ross parece saído de uma daquelas lojas de móveis embaixo do Minhocão? 
Quem nos trouxe até aqui foi um germe invisível, empurrado por uma massa de energia que tentamos entender. Contornou o nosso desequilíbrio, ordenou o lugar das coisas, nos deu a inteligência e com ela instalamos o caos. Isto antes do portal. Depois dele, a escrita nos explica de várias formas. Bem, isto deve ser o resumo de um dos trabalhos a ser feito neste feriado. Logo que eu me ponha de novo no lugar. 
Nos tempos em que gostava de cerveja - e de todas as garrafas ordenadas nas prateleiras – eu já estaria na estrada agora. Estaria contando uma história, estaria rastreando a origem das coisas e ajeitando os móveis de uma casa fictícia onde mora Adélia, de um conto que perdi. Mas remontei minha história, ainda que o melhor dela esteja naquela zona cinzenta entre dois caminhos, quando soube os custos e benefícios de ser livre. 
Já perceberam as marcas de enchente nas paredes das casas, nas regiões baixas, nos lados do Brás e Cruzeiro do Sul? Aquilo marca um tempo – esse tic-tac quase imperceptível que vem do relógio de camelô sobre a minha estante – e as pessoas que estavam por ali podem não ser as mesmas. Mas numa mesa de bar, entre um fogo-paulista (é, eu me lembro!) e cerveja, as suas narrativas poderiam ser bem parecidas. 
Há histórias num pen-drive que acabei esquecendo no meio de cds, dvds e rascunhos de um dia qualquer, de personagens por descrever. É engraçado isto, e quem escreve sabe. Nos primeiros esboços de um personagem ele já ganha corpo e arranja um espaço no seu dia a dia. E com o tempo, já consta dos registros oficiais, com direito a RG, CPF e contagem de tempo de aposentadoria. Alguns nascem velhos, com histórias que eles vão me contando aos poucos. Vida e aleatoriedade é a mesma coisa, eles me dizem, com a sabedoria de uma existência que ainda vou descobrir. E aqui está uma coisa que você já ouviu e que os escritores sabem: depois que nasce um personagem, é ele quem guia o escritor e não o contrário. É assustador, é surpreendente, logo, é um vício. 
Ao trabalho, pois.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

NOSSOS ANJOS.



O anjo protetor sentado no canto da minha sala é o mesmo que espera Suzi, a prostituta, deixar seu trabalho no Golden Saloon – um night club numa estrada de terra que liga qualquer lugar a lugar nenhum. Este milagre da onipresença só pode ser compreendido dentro do caráter ficcional das crenças que nos confortam. Não importa a verdade aqui. Importa que a vida comporta a morte e apenas isto é o bastante para que desconfiemos da nossa autossuficiência. 
Suzi e eu somos diferentes. Ela aprendeu na carne – de forma literal e figurativa – a capacidade humana de impor ao seu semelhante uma forma abjeta de luta pela vida. 
Eu escrevo textos para uma revista de variedades e a minha função é tornar glamorosa e bem sucedida a vida de Suzi, para que durmamos em paz sob o olhar do anjo que guarda a nós todos. Não importa que Suzi esteja estragada para a vida aos 26 anos no quarto imundo de um bar para machos, em algum lugar do sudoeste. O que interessa é que eu e Suzi vivemos sob a vigília do mesmo anjo. Saber se a conta vai fechar no final é o mistério que me amedronta. E para o qual, Suzi não está nem aí.  

domingo, 22 de setembro de 2013

MAS ISTO É PASSADO...



Há muito, muito tempo atrás, numa época em que a disputa do mundo se dava no campo, as famílias precisavam de mão de obra para arar, plantar, cultivar e colher. Daí a grande quantidade de filhos.  
Era um tempo difícil e de pouca compreensão do mundo. As grandes distâncias impossibilitavam o conhecimento de outros povos, outras culturas e, portanto, não existia o intercâmbio de informações. 
A rotina era simples e com um objetivo claro: vencer sem sutilezas. Um mundo desprovido de discussões “tolas e acadêmicas” como direitos individuais, de classe, de gênero e de raça. Um mundo movido à força. 
Os filhos mais fracos eram vistos com desconfiança pelos pais rigorosos – um tempo de gravidez e expectativas desperdiçadas com uma capacidade de trabalho limitada e sem futuro.   
Já que estavam ali, esses fracos eram criados mais ou menos como os outros, porém sem a aprovação dada aos mais fortes, os que saiam para o trabalho duro do campo, os que suportavam horas de enxada sob um sol impiedoso, os que desciam o morro lado a lado com os mais velhos, os embrutecidos embrutecendo os embrutecedores de amanhã. 
Os fracos cresciam convivendo com as chacotas de pais, irmãos, vizinhos e quem mais quisesse – era um tempo difícil, toda diversão era bem vinda. 
Esses seres sem futuro acabavam se ajeitando no mundo, graças à posição na fila garantida por Deus: Os últimos serão os primeiros. Casavam-se, tinham filhos. Embrutecidos pelas razões inversas, jogavam nos filhos as mesmas regras, os mesmos costumes, dando seguimento a uma sociedade fundamentada no custo-benefício. O amor, produto raro, era reservado aos que fizessem por merecer, os bem-aventurados fortes e resistentes premiados por Deus, Este sempre invocado para dar legitimidade a toda forma de brutalidade.   
Mas isto foi há muito, muito tempo atrás. Hoje todo mundo sabe que essas coisas não existem mais... 
O curioso é que volta e meia encontramos pessoas que enaltecem a violência como forma válida de educação. Incapazes de decifrar o mundo em que vivem, levantam os braços aos céus por terem sido doutrinadas desta forma. 
Não compreendo. Deve ser resultado de algum elo quebrado viajando no tempo.