sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ME ADICIONA, ZUMBI?



Onde anda seu pensamento positivo? Cuidado que o universo te observa e pode te condenar ao bem e ao mal em questão de segundos. 
Você se acha melhor que as correntes infindáveis de citações enriquecedoras, escavações das nossas melhores intenções, duvida de tudo e não vê a grande verdade: Como somos todos bons! 
Por onde anda os seres humanos reais, aqueles que infernizam nossa vida ao longo do ano, com suas maldades silenciosas, seus disfarces em frases curtas e sorrisos inocentes, (ops, foi sem querer)? 
Onde anda a verdade das religiões, que com pequenas variações de métodos pisoteiam as nossas culpas todo santo dia? 
Honestamente, o ambiente tornou-se insalubre. Claro que você pode argumentar que o problema sou eu. Ainda vale o clichê de matar o mensageiro quando a mensagem faz barulho demais. 
Como se tornou fácil o discurso engrandecedor, indignações de toda cor e para todas as tragédias do mundo que sempre estiveram no mesmo lugar. Ah, mas agora somos uma grande comunidade, somos parte das redes sociais, agora somos todos bem informados – aliás, tão bem informados que andaram compartilhando mensagens de condolência pela morte do Mandela meses atrás. 
Não, meu amigo. Apenas vestimos todos o manto de boutique de super humanos, super antenados, super descolados, super filhos de Deus e amantes da humanidade. E de olho no número de “curtir” que rende cada post.  Próximo! 
Honestamente, que porre!
E essa “galera” que agora compartilha qualquer merda de aparência revolucionária que vai mudar os destinos do mundo, mas que lá na página original esconde um fascista de carteirinha, apoiador de militares e de ditaduras, imbecil até o osso e freguês de excrescências como Marcelo Resende, Datena e outros?  
Eu só posso chegar a uma conclusão, que vai causar a tristeza dos conservadores e encher de alegria o coração dos fãs das franquias chupadas de George Romero: Os zumbis venceram e tomaram as páginas das redes sociais.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

SACO



Fazer planos e mantê-los ativos faz parte de estar por aqui, de desejar realizar algo. Não consigo ver qual o objetivo em estar vivo se não tenho nada a atingir. Não sei se vou conseguir chegar onde quero. Às vezes acho que sim, muitas vezes duvido. Essa balança acontece o tempo todo e é muito difícil conviver com isto. 
Quando olho o monte de papeis e o tempo gastos todos estes anos, chego a ficar desapontado, até meio depressivo. E de que jeito seria diferente? Ser alguém que não sou, escrever o que não gosto, ter uma opinião que agrada a todos, fazer de conta que está tudo bem o tempo todo? 
Não tenho amigos que me financiem, mal consigo convencê-los do que faço e de que pode valer a pena dar um crédito. Cada um tomou seu caminho, todos têm seus objetivos, problemas, despesas, uma vida longa a percorrer. Sou eu o velho, caralho! Meus problemas são meus problemas. 
Estou sempre perto de desistir, hoje via anúncios de terrenos na beira de uma represa em Minas, quem sabe? Pode ser que eu enlouqueça um dia, pode ser que eu saia pra comprar cigarros e... Ou já pensei em comprar um barco, marcar um ponto imaginário no alto mar e desaparecer. É um jogo, uma gangorra. 
Você pode achar fácil, talvez seja fácil pra você. Conheço pessoas assim, traçam um plano e seguem obstinadas naquilo, e fazem sucesso e chegam lá. Não posso dizer o quanto do que ela fez era realmente o que ela queria fazer, mas chegou lá, este é o ponto. E aqui é que a coisa pega: Eu acredito que preciso ser honesto com meus princípios, com meu pensamento, com o meu jeito de ver e com a maneira que eu quero fazer meus filmes, como escrevo meus livros, meus roteiros, meus textos de teatro e tudo mais. Já ouvi de algumas pessoas que “Norte toda Vida” é um saco pra ler. Por que não tinha uma doçura aparente e cativante logo nas primeiras páginas? Ele tem começo, meio e fim, só que estão embaralhados de uma forma que você precisa mesmo gostar de literatura e poesia pra encarar a tarefa. E você também precisa saber que quem escreveu aquilo é teu vizinho, amigo, um cara com quem você esbarra todo dia, não o escritor da hora recomendado por aquela revista semanal. Eu não vou escrever “fácil" só porque algumas pessoas têm preguiça de ler. Estou errado? Pra mim, não, eu estou certo. 
Uma coisa que penso de uns anos pra cá, e que demorei muito a aprender, é que só eu sei qual a história que eu quero contar, só eu sei como começa e termina. Que me perdoem aqueles que acreditam em roteiros escritos a cinco mãos, mas isto não existe. Você chega a uma história, mas aquela que você queria contar morreu no processo. 
Então é isto. Continuo, mas contra uma vontade muito foda que me acomete de vez em quando de jogar tudo pra cima e tomar outro rumo. Talvez acabe fazendo isto, ainda que por uma paz temporária, ainda que pra buscar um pouco de fôlego ali adiante.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

IMAGEM E MEMÓRIA



O Bem-te-vi com seu grito acusatório num rascunho de paineira aqui do lado. A paisagem de outono costuma trazer o pior, na folhagem cor de cobre e nos rastros escuros que seguem as queimadas. E traz o melhor, no contraste acentuado de claro/escuro de um sol intenso e amarelado. A casa vai ocupando seu desenho à beira do lago, nesta encosta seca, e triste, agora que entardece. 
- Do que você lembra?
- Alguém, um grupo subindo um morro, levam, acho, sacos nas costas, coisas que assaram para uma viagem...
- Quem são?
- Não sei...eles se voltam e me olham, e me vejo entre eles.
- E o que ficou lá embaixo?
- Não sei, sei sim, mas não quero olhar de novo... Irá me paralisar, irá plantar uma imagem eterna na minha cabeça...
Eu cheguei por uma estrada estreita há alguns anos. Lembrei-me deste lugar, numa época em andava sem rumo, um carro, uma máquina de escrever, papeis espalhados pelo banco traseiro, garrafas de bebida no porta-malas e embaixo dos bancos. Não cabiam dois carros naquela estrada, mas era noite e eu precisava estar ali, ao lado daquela beirada do lago, era ali que tudo tinha que recomeçar.
- E aquilo que você falava do rio...
- Era um rio cheio, mas antes...Teatro mambembe, itinerante, artista andarilho, que monta seu palco e arte em qualquer lugar... Então, era como um teatro desses, aquelas pessoas todas dentro do caminhão, como se fosse um palco, o rio vazando, a água na metade dos pneus, aquelas luzes todas, uma terra estranha.
- Lembra-se da data?
- Não, mas alguém varria o terreiro em frente a casa quando saímos, “pra dar sorte”, acho que alguém disse...Era uma manhã ensolarada. Ou talvez não...
- Por que?
- A memória enfeita as coisas e fica mais bonito do que realmente foi...
Ergui três cômodos e uma casinha fora, pra guardar ferramentas ou fazer uma oficina para trabalhos manuais, vou ter tempo, acho que bastante tempo agora. Escurece. E daqui a pouco vem o que me trouxe aqui. Daqui a pouco ela vai aparecer lá, na confluência daquelas duas montanhas, e você verá.
- Mas você falava do rio...
- Já não falei tudo dele, do rio? Já, acho que sim, é o que me lembro de antes de adormecer e acordar no dia seguinte numa rua cinzenta, fria...
- Onde era?
- Estávamos em frente a um bar, alguns desceram, só os mais velhos, as crianças não, nem a mulher... Crianças e mulher ficam por último... Engraçado, não lembro quem era ela, nem eles, sei que são pessoas que conheço...
- Você conhece, com certeza.
Voltei a fumar, tomo uns tragos de vez em quando, é assim com todo recomeço, as cinzas que me perseguem. Mas firmei os pés numa estrada e num ponto de vista que agora, queira ou não, terá que seguir. Até mesmo o tempo um dia se esgota. Coloquei duas batatas-doces para assar no fogão improvisado, certos hábitos são um calor, um afago, um reencontro, um diálogo silencioso. Agora já ouço mais a cachoeira, desce alta e alarma um estrondo que rola para dentro do vale. Ainda que nem seja toda essa água, que agora mingua, nesta estação.
- Sabe tristeza? Já teve? É aquela rua, não houve memória que pudesse por alguma cor ali. Chovia, não posso esquecer-me disto, o caminhão deslizando na lama... Por que isto não esqueço?
- Então segue, fala do resto.
- É aqui que para... É sempre aqui... Neste ponto, não é isto?
Vai ficar bom, não preciso muito, é um projeto velho, de criança velha. Amortece tudo, a noite. E me liberta. Vê lá? Vem subindo, imensa, uma aparição, redonda e inteira agora, vem clareando o vale acima até aqui, e vai atravessar aqui por cima. Vejo tudo, se estiver acordado. É neste lugar que vai ficar a rede, as duas colunas da varanda, quando tudo ficar pronto. Vai ficar, logo, logo.
- Vale a pena continuar?
- Vale, vale, vai te fazer bem. Vamos...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DUAS HORAS COM JERRY MAGUIRE


Eu preciso dizer o quanto de liberdade uma perna engessada pode dar. A preguiça deixa de ser uma preocupação moral para manifestar-se na mais desavergonhada forma de independência. Quanto de culpa posso carregar se o universo me colocou numa sinuca de bico? E a cada vez que penso no quanto podia estar fazendo, eu ganho a sensação confortável de que uma suposta perda de tempo transforma-se num hiato necessário para reconsiderações essenciais sobre esta minha trajetória.
Posso me ater a detalhes, posso assistir a programas a que sempre odiei, posso achar sentido na existência do lugar-comum em um roteiro mal escrito, posso chorar com a cena banal de um filme desprezível. Será que os canais lacrimais estão de alguma forma ligados com os ossos das pernas?
Nunca tinha assistido a “Jerry Maguire”, a não ser em cenas separadas, trechos em dias diversos, ao girar o controle remoto. Mas hoje eu posso me dedicar a assisti-lo inteiro e tentar entender porque nunca havia chamado minha atenção.
Mas antes, preciso falar de algo que me incomoda e que vi num programa da Globo News (entendeu o que eu quis dizer acima?). Já sabia disto antes, já tinha lido antes, já tinha minha opinião sobre isto antes, mas tinha que ser nestas condições que isto se tornasse tão importante. A matéria falava sobre a febre dos aplicativos para celulares, games, e o quanto isto está fazendo a fortuna de alguns criativos. E a palavra que me deu o click foi “passatempo”. O que é isto?
É aquilo que se faz para preencher os momentos tediosos, os minutos intermináveis na sala de espera do dentista, o tempo parado no aeroporto esperando uma conexão, a hora gasta na fila do restaurante da moda porque você não pode deixar de experimentar a mágica do chef número 5 no ranking mundial. Quando foi que passatempo se tornou exemplo de falta de educação, em que familiares e amigos reunidos numa mesma sala, preferem se dedicar a um joguinho no celular, ao invés de rirem e aproveitarem os raros momentos de fraternidade que esta vida nos permite? Qual maior símbolo de indiferença pode haver quando pessoas passam a conversar com você apenas nos intervalos de uma jogada - ou seja lá qual termo tecnológico possa expressar isto – como se elas estivessem fazendo pequenas concessões às tuas observações ultrapassadas, às tuas opiniões repetidas de homem velho e obsoleto?
Pronto! Passou a raiva. 
Filmes são feitos com um propósito e a forma que eles nos alcançam depende de quais aspectos da nossa vivência estão mais susceptíveis, quais alvos nossos estão em campo aberto para serem atingidos.
Jerry Maguire não é um grande filme, é um bom filme. Mas visto com o tempo e grau de abertura de que disponho agora, conseguiu me emocionar. E este é o propósito do filme, embora seja curioso que isto aconteça muito mais em outras partes da narrativa, como na relação de amizade entre o agente Jerry Maguire (Tom Cruise) e seu único cliente, o jogador Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), do que entre Jerry e Doroty (Renee Zellweger), com quem acaba se casando. Ou serão meus olhos? Ou será a perna? Ou serão os dois? Talvez não seja por nada disto. Acho que é por algumas outras coisas pontuais levantadas nesse filme.
Quanto de verdade um garoto carismático, com a fragilidade e honestidade de uma criança pode despertar na vida de um homem como Jerry, perdido num processo de autocomiseração e afundado num mundinho movido a ganancia? O que isto me diz? Ou quando Jerry pede um conselho a Rod sobre sua relação com Doroty, e diz a ele que ela é mãe solteira, e Rod lhe pede para ser honesto com ela “porque mãe solteira é uma coisa sagrada”, onde isto me pega?
Somos seres deste mundo, meus amigos, não se iludam que não estejamos de alguma forma apegados a todos e a tudo, de que estamos protegidos dos nossos erros e dos nossos malditos preconceitos. 
Sim, os filhos pagam pelos erros de um pai (ou se beneficiam quando dão sorte). Somos provedores brutos, ignorantes, saímos todas as manhãs com nossa clava para buscar a subsistência dos que ficaram no fundo da caverna. Embora essa relação tenha mudado ao longo do tempo, e as mulheres também botem a cara diante das feras na selva, ainda é sobre os ombros do pai que recai a sina do provedor frio, calculista, insensível e único culpado quando as coisas se perdem na seara financeira. Somos o figurante nos tempos de fartura, somos o Tom Cruise quando a ordem desanda.
Sim, conheço algumas mães solteiras. E conheço o peso que elas carregam por viver num mundo de idiotas preconceituosos (homens e mulheres), e aproveitadores (homens e mulheres), de familiares incapazes de enxergar seus próprios erros, de donos da verdade (geral). As mulheres solteiras que eu conheço são grandes mulheres porque, apesar de entrarem em desvantagem no jogo, de regras que elas não criaram e as quais subverteram, de terem que restaurar a verdade a cada instante, esfregam na cara de uma sociedade cruel a sua capacidade de resistência e um sorriso enigmático que diz “não fale de mim, pois eu sei bem quem você é”.
Eu poderia me estender sobre outros aspectos que me tocaram no filme, mas acredito que já excedi os 125 caracteres permitidos. O que interessa é que, como todo bom filme hollywoodiano, Jerry Maguire triunfa no final e todos são felizes para sempre. Mas, assim como na vida, meus amigos, o que importa é a trajetória.
É um clichê? Ah, foda-se, hoje eu posso.

 

domingo, 3 de março de 2013

CLICHÊS

“Tem chovido muito nos últimos dias”. A frase, um chavão de janeiro, passou de raspão no ar contemplativo de Daniela. Ela voltou-se, me olhou com desprezo pela obviedade da colocação e voltou ao seu mundo, isolada de mim. Eu coloquei o café morno sobre o parapeito da janela e olhei a cidade. Lembrei-me de verde, um rio vazando pelas baixadas, casas apartadas pelas estradas de lama, a chuva pesada na contraluz que atravessa uma floresta de eucaliptos. “Deus não economiza em bondades”, eu disse. “Desde que Ele vá com a sua cara”, ela respondeu. Atravessamos aquele dia entre pequenas ofensas, farpas que se escondem nas dobras das relações intensas. Saí embaixo de chuva na virada da noite, para um pequeno hotel no centro da cidade. Ela ficou se apossando da casa e de tudo que construímos ao longo de quase 30 anos. Não carrego culpas além daquelas herdadas da minha formação católica. São para a vida toda, não preciso de outras. Faço mais um x na parede, calendário de presidiário, e sigo por qualquer campo isolado que possa alcançar por um tempo, até a calmaria, até o próximo olhar, até a próxima construção de uma história. Velas apagadas, barcos a deriva e um certo desencanto que rouba as cores de tudo que nos rodeia. Até que a chama de um isqueiro, um vento norte e um sorriso desconcertante traga a vida de volta ao eixo. Final e recomeço. Clichês.

sábado, 28 de abril de 2012

PARÁBOLA DE UM AMOR PERFEITO (1998)

As noites andam calmas ultimamente. Daqui de cima, olhando a cidade, tenho a impressão de que o mundo estagnou. Novos fatos estão ocorrendo todos os dias, eu sei. Estamos em 1998, há bombas explodindo na Índia e no Paquistão, as crises econômicas da Rússia e dos países asiáticos estão abalando as bolsas do resto do mundo, temos a velha seca do Nordeste, as invasões de terras, a violência, as drogas. Eu sei de tudo isto, mas, olhando esta noite, com sua lua branca rodeada de um arco embaçado, tenho a impressão de que o mundo estagnou. Uma sensação, talvez a solidificação de um temor, talvez a descrença de que algo novo chegue até aqui em cima e que me faça enxergar de novo, de uma outra maneira, tudo aquilo que se tornou repetitivo, velho demais. Morávamos juntos, eu e Ana Lucia, numa confortável cobertura na Cantareira, olhávamos a vida lá de cima, a realidade era aquela que havíamos forjado para nossa existência. Não tínhamos filhos, não sei bem a razão, ela sempre argumentava que filho era bom, desde que não tivesse que cuidar, não saberia lidar com aquilo, eram muito frágeis quanto pequenos e insuportáveis quando adultos, via isto nos filhos dos poucos amigos que tínhamos, se é que os tivemos. Os canalhas normalmente fazem o caminho que lhes parece correto: Enchem as esposas de filhos e depois arrumam amantes que lhes possam dar o sexo quente, por vezes animal, sem pedir grandes comprometimentos, desde que recebam uma gorda conta bancaria que lhes permitam viver com folga. Eu fazia diferente, procurava em garotas de programa algum tipo de alívio, já que Ana Lucia via o sexo como um suplício. Podia valer-me da minha posição de empresário bem sucedido e do poder de sedução que o dinheiro me conferia, podia cercar-me de algumas amantes, não mais que uma por vez, tomando sempre o cuidado de evitar envolvimentos, nada que durasse mais que dois ou três meses. Com um bom reembolso conseguiria a garantia de silêncio e também não correria o risco de chantagens já que Ana Lucia, de certa maneira, sabia das minhas necessidades como homem, seria como um acordo velado, tendo satisfação com outras mulheres eu não precisaria incomoda-la. Mas não, eu achava as putas mais honestas e, sendo um serviço pago, eu não via aquilo como uma traição. Ana Lucia gostava de sair todas as tardes, além da ginástica três vezes por semana, arranjava sempre algum outro compromisso, algum chá beneficente, alguma visita a instituições de caridade ou de deficientes, reunião de senhoras do bairro, e coisas assim. Ela não me incomodava e tampouco seus compromissos. Apesar de ser uma mulher lindíssima, nunca me preocupei com possíveis relações extraconjugais, seu desinteresse pelos assuntos sexuais era bem nítido, buscava intensamente as coisas espirituais, místicas, além de ser católica praticante, dessas de ir à missa aos domingos e tudo mais. Tínhamos uma relação afável, generosa, à noite conversávamos sobre as coisas do dia, não havia conversas exacerbadas, sempre um tom civilizado. Éramos um casal respeitado nos meios sociais, apesar da ausência de filhos as pessoas nos viam como o exemplo de um casamento sólido, nosso relacionamento era, se posso dizer assim, eficiente, burocrático. Um dia ela me disse eu vou te deixar. Disse assim, calmamente, olhando para a xícara de café, para o suco de laranja, para o mamão-papaia, para as fatias finas de presunto, para a tijelinha de cereais. Estávamos sentados junto à janela, o sol surgia sobre os morros da Cantareira e iluminava o rosto de Ana Lucia, dourados pela luz. Depois de comunicar aquela decisão a todos os apetrechos da mesa ela levantou a cabeça e me olhou e notei que em seus olhos azuis havia um brilho diferente. Talvez aquele brilho sempre tivesse sido daquele jeito, há muito eu não olhava para os seus olhos, talvez por isto eles parecessem diferentes agora. Não, havia uma diferença sim, havia algo por detrás deles, eles queriam me dizer alguma coisa, pareciam estar marejados, talvez cheios de palavras represadas. Seus lábios tremiam levemente, algo quase imperceptível, um detalhe que talvez eu não notasse em outra circunstância, ela levantou-se e passou a andar pela sala. Eu esperei, o jornal havia entornado o copo com suco sobre minha calça e o que havia sobrado pingava da mesa para o carpete. Pouco depois ela voltou-se e sentou-se novamente, era uma mulher de não demonstrar emoções, lembro-me de nunca tê-la visto chorar, disse que havia dormido pouco e sentia os olhos irritados. Eu perguntei o porquê daquilo, enquanto tentava enxugar a calça com um guardanapo, perguntei se lhe faltava alguma coisa e ela disse que tinha muito mais do que precisaria para viver, não era essa a razão. Confesso que achei minha pergunta extremamente estúpida, reduzia o nosso relacionamento ao nível dos bens materiais, não era isto que eu queria dizer, foi um ato falho, e disse isto a ela. Ela respondeu que os atos falhos são para isso mesmo, para abrir a verdade. Mas complementou dizendo que eu não me preocupasse com esse detalhe, que ela não se sentia aborrecida por aquilo, que em um relacionamento como o nosso as coisas não poderiam ser diferentes. Ajeitou os cabelos com as mãos, como se fosse fazer um rabo-de-cavalo, e sorrindo gentilmente me disse que havia decidido mudar o rumo de sua vida, que havia encontrado algumas respostas para o que procurava, coisas que eu não iria entender. Perguntei se havia outra pessoa, minha voz tremia, ela respondeu que não, que tinha muito carinho por mim e que gostaria que continuássemos amigos. Do meu escritório eu via o Edifício Itália batendo no céu, nuvens carregadas de fim-de-tarde passeavam por sobre a cidade, eu tinha o jornal aberto sobre a mesa. A conversa com Ana Lucia não me saia da cabeça, quase dez anos de convívio, eu tentava entender aonde havia errado, meu comportamento com ela sempre estivera de acordo com a maneira que ela gostava de viver, talvez eu não tivesse sido capaz de despertar nela outros sentimentos, talvez eu tivesse me acomodado, imaginava que envelheceríamos juntos, uma coisa tola eu vejo agora, mas era o que estava implícito no nosso modo de vida. Aos poucos meus pensamentos foram seguindo outra direção, eu sempre a havia deixado muito livre, lembrei-me de que, exceto os nossos amigos comuns, eu não conhecia ninguém de seu relacionamento particular, suas saídas a tarde, suas sessões de ginástica, muita coisa pode acontecer nesses ambientes, ela era uma mulher bonita. Alguém poderia ter despertado nela sensações que eu nunca fora capaz, indo direto ao assunto, alguém poderia tê-la feito descobrir o prazer de gozar, saber o que era orgasmo, sentir tesão, era uma mulher saudável, beirando os trinta e cinco anos, cheia de energia, meu Deus, como eu pude ser tão cego? Uma hora depois de eu ter ligado, o sujeito chegou no meu escritório. Não vou perder seu tempo em descrevê-lo já que é o tipo de gente que eu nunca apreciei, e de quem eu jamais imaginei que fosse um dia precisar. Era um detetive particular, que peguei de um desses anúncios de jornais, era um risco, essa gente é sempre uma incógnita, mas me garantiu sigilo e me pareceu ser um bom profissional. Eu alugara um apartamento em Moema para Ana Lucia, pedi a ela que refletisse antes de falarmos em divórcio, na verdade eu precisava ganhar tempo. Ela abriu mão do apartamento, disse que havia arrumado um pequeno no Jabaquara, que havia conseguido emprego como assistente social em uma instituição para deficientes, deixou endereço e telefone e que eu não me preocupasse. Convidei-a para jantar algumas vezes mas ela recusara. Estava cursando filosofia à noite e durante o dia não havia como nos encontrarmos, tinha todo o período ocupado com seu trabalho. Nos finais de semana disse que era impossível nos vermos, mas não me disse a razão. E assim passaram-se seis meses. O detetive esteve em meu escritório varias vezes, trouxe-me fotos, relatórios, nada que a comprometesse, por fim o dispensei, Ana Lucia levava uma vida absolutamente limpa. A minha vida perdera completamente o sentido. Curioso isto. Durante todo o tempo em que convivemos, nunca havia me dado conta do tamanho do espaço que ela ocupava em minha existência. Lembrava-me constantemente do seu sorriso amável, dos seus gestos cuidadosos, da sua preocupação em me ver sempre bem, da maneira como ela escolhia as palavras para não me ferir. Nunca dissemos eu te amo um ao outro, mas alguma forma de amor se escondia na suavidade da nossa relação. Só não havia isto, a cama. Dormíamos juntos, mas raramente nos tocávamos, era como se qualquer tentativa nesse sentido pudesse colocar tudo a perder. Não posso dizer que isto não me incomodava, sentia-me muitas vezes incompetente, lia sobre as loucuras que algumas pessoas dizem fazer na cama, sorria acabrunhado quando casais amigos comentavam suas particularidades. Era quase impossível separar sexo de uma mulher como ela, tinha devaneios, masturbava pensando nela em transas malucas, nas posições mais variadas, muitas vezes tive vontade de pegá-la a força, mas nunca tive coragem. Minha casa havia ficado grande demais, a volta do trabalho havia perdido a graça, era como se eu tivesse perdido um elo, naquele momento eu me achava com poucas razões para viver. Os negócios iam razoavelmente bem, mas comecei a pensar seriamente em mudar de cidade, ir para o interior, envolver-me com atividades menos desgastantes, o homem sempre quer ir para longe quando precisa se achar. Um dia, num sábado pela manhã, eu fui, sem avisar, até o apartamento de Ana Lucia, levei um ramalhete com flores silvestres, que ela sempre gostara. O porteiro disse meu nome no interfone, houve uma pausa, perguntou meu nome novamente e depois confirmou para o outro lado da linha, eu podia subir. Ela abriu a porta e sorriu, eu sorri também, estendi a mão e ela me abraçou, disse que bom te ver e me convidou para entrar. Seu apartamento era pequeno, duas samambaias penduradas, uma estante com bonequinhos de porcelana, vídeo, som, uma tv pequena, dois sofás de tecido azulado, uma mesa de madeira escura, um conjunto de sininhos em espiral no canto da parede e uma garotinha entrou do quarto para a sala. Esta é Clara, disse Ana Lucia, abraçando a menina que sorria agarrada à sua cintura, não tinha mais que dez anos. Ela pediu que eu me sentasse, disse que adotara Clara, seus pais haviam morrido e não tinha quem cuidasse dela. Havia a casa assistencial, onde ela ficava o dia inteiro, e onde Ana trabalhava, e a noite as duas vinham juntas para casa. A menina tinha algum tipo de deficiência mental, mas não fiquei sabendo de maiores detalhes. Perguntei pelo curso de filosofia e ela, um pouco sem jeito, disse que tinha sido uma pequena mentira, não queria falar sobre Clara pelo telefone. Ela perguntou por que eu estava lacrimejando e eu disse que não havia dormido direito, que sentia os olhos irritados, Clara voltou para o quarto e ficamos os dois na sala. Sentei ao lado de Ana Lucia e peguei em suas mãos, estavam frias, seus olhos estavam úmidos, eu disse que ela podia ter me falado que gostaria de adotar uma criança, que por ela eu seria capaz de ter esse amor, que se ela quisesse nós poderíamos voltar a morar juntos, os três. Ela sorriu, foi até a cozinha e voltou com duas xícaras de café, sentou-se em uma das cadeiras da mesa e, me olhando de um modo muito divertido, disse que o detetive que eu havia contratado para segui-la tinha lhe passado uma cantada. Abaixei a cabeça, senti-me pequeno, ridículo, e ela, como sempre, veio em meu socorro, e ao mesmo tempo disse coisas que até hoje não sei se compreendo bem. Disse que qualquer homem, no meu lugar, tomaria a mesma atitude, que esta é a atitude normal dos homens quando se vêm diante de situações fora do lugar-comum, pensar em traições é sempre mais confortável, visto que, para eles, dentro do seu pequeno mundo, é impossível que uma mulher bonita não seja igualmente ardente, sedenta, fogosa. E que esta é a visão geral das pessoas, inclusive, e principalmente, a visão das mulheres, que se vêm, em muitos casos, obrigadas a fingir prazer para não serem taxadas de frígidas. Disse que simplesmente não gostava de sexo, não via prazer naquilo e que gostaria de ser respeitada pela sua opção de vida, que achava mais importante o seu engrandecimento espiritual, a dedicação a pessoas como Clara, que dependem de amor para sobreviver, do tipo de amor que ela sabia dar. Disse que não abria mão da liberdade de ser o que era, e que gostaria muito que as pessoas a deixassem em paz, que era assim que ela se sentia plenamente feliz. Cinco anos já se passaram. Recolhi-me nesta casa nas montanhas, de onde vejo uma pequena cidade aqui perto. Gasto meu tempo escrevendo coisas que, se não servem para nada, ajudam a purgar a alma. À noite, eu me deito sobre este banco longo de madeira e, de frente para o céu, olho a lua e as estrelas e tento entender. Varias vezes durante o dia eu olho para a porteira lá embaixo, esperando que um dia Ana Lucia volte. Se ela não demorar muito, ainda haverá tempo para envelhecermos juntos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

De um romance em construção.

É um rio vagaroso de não mais de vinte metros de largura, desses em que só se percebe a correnteza pelo movimento dos arbustos nas margens. Leva uma lua cheia e branca em seu meio, a noite dobrando para a segunda metade. Um velho de andar arrastado vara as moitas de capituva e se aproxima da margem, quando uma movimentação do outro lado chama sua atenção. Um cão de três patas surge sobre o barranco e para, num equilíbrio estável e improvável. Seus olhos se encontram. O velho, absorto na estranheza daquela figura, por um instante se desvia do que o trás ali. Mas um gemido de dentro das águas o desperta. Ele se agarra nos arbustos e desce o barranco até a beira. Ajoelha-se e dobra o corpo, como se tentasse enxergar dentro do rio. Uma força brutal, vinda de não se sabe onde, puxa seu pescoço pra dentro da água e ali o mantem sem que ele consiga se soltar. Ele se debate desesperado. Sob as águas, mãos e rostos aflitos vão surgindo e se aproximando. No extremo de suas forças, o velho consegue se soltar e cai de costas sobre os arbustos. Na outra margem, o cão de três patas permanece impassível.

Amadeu acorda assustado, seu rosto está coberto de suor. Alguns filetes de luz entram da rua pelos vãos da veneziana e riscam o guarda-roupa em frente à cama. Com alguma dificuldade, ele se senta. Do criado-mudo ao lado ele pega o maço de cigarros e acende um, a luz do isqueiro ilumina um crucifixo na parede sobre a cama. Latidos e barulhos de carros chegam das ruas próximas. “Todo uivo vem de longe”, pensa. Trêmulo, ele se levanta e sai.
Atravessa a sala no escuro e acende luz ao entrar no banheiro. Mantem a cabeça abaixada por um instante para recuperar-se do choque da claridade. Sente a cabeça pesada, a ressaca grudando as paredes da garganta.
Ele olha-se no espelho, brevemente. O rosto maltratado aparenta 60 anos. Tem menos. “A idade é uma chacina”, pensa. Mas não sente mais os remorsos de antigamente, quando nesta hora, com os efeitos dos excessos da noite anterior, repassava as tragédias de uma vida permeada de enganos e fracassos. Hoje é um homem seco por dentro, como gosta de pensar, embora seja apenas uma estratégia de sobrevivência a mais. Apanha a escova de dente. Na parede do corredor há uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O resto de luz do banheiro revela um pouco da cozinha logo a seguir: Um fogão pequeno, a pia vazia, uma mesa de duas cadeiras, um armário estreito e um refrigerador já meio antigo. O barulho da costumeira ânsia de vômito enquanto escova os dentes se espalha pela casa. Cospe e enxagua a boca. Em seguida, o barulho do chuveiro. Na sala, a claridade do dia vem entrando por debaixo da porta.
Pouco tempo depois, Amadeu deixa casa. “Por que um cão de três patas?”, ele pensa.